Qual a Saída para a Crise?

PalestranteNão. Não estou sugerindo que a saída para os brasileiros seja mudar de país, embora eu respeite muito quem tenha tomado essa decisão. O que eu quis dizer com essa foto é que, além da imensa pressão que nós, como sociedade civil, temos a obrigação de exercer sobre as esferas municipais, estaduais e federais do universo político nacional, devemos efetuar uma revolução paralela em nosso estilo de vida, fomentando uma cultura empreendedora em nosso país que, por mais que esteja à anos-luz de um Silicon Valley, deve ter o ambiente empreendedor dessa localidade como norte para o caminho que devemos construir. O Brasil é bem maior do que o governo. O Brasil precisa aprender a pensar grande.

Na postagem “Como Ser Empreendedor”, eu dei algumas pinceladas nesse quadro da necessidade de se pensar como um empreendedor. E agora, amplio esta discussão para a necessidade de uma revolução cultural na forma como enxergamos nossa relação com o trabalho, com o dinheiro, com o governo, com o socialismo, com a atividade produtiva, com a economia e com o capitalismo.

Para tudo o que eu escreverei a partir de agora, é óbvio que haverá muitas exceções. Então, vou avisando desde já que eu efetuarei generalizações por entender que o nosso problema é de ordem cultural. Portanto, esqueça as exceções por um momento e vamos pensar de uma forma mais generalista. Se sua leitura não levar isso em consideração, a interpretação do texto será prejudicada.

Uma questão de cultura

Culturalmente falando, a sociedade brasileira sempre foi lapidada desde a infância por um estilo de vida que cria a impressão de que dependemos do governo e, para piorar, uma sucessão de governos intervencionistas, sejam eles de direita ou de esquerda, reforçam essa visão de que o Estado deve botar o dedo diretamente em nossas vidas. E com uma sequência de governos de orientação socialista, a ampliação do papel do Estado na vida do cidadão vai ficando cada vez maior.

Em contrapartida, a cena de nossos pais chegando em casa com queixas frequentes sobre o trabalho acaba criando uma paulatina sensação de que trabalhar não é uma coisa muito agradável desde a nossa mais tenra infância. Fazer algo de valor na sociedade e deixar a sua marca sobre o mundo são sonhos pouco alimentados em nossas famílias, sendo sempre mais garantido arranjar um bom emprego em uma boa empresa do que arriscar a perder dinheiro em um negócio mais do que incerto. Trabalho inspirador e com significado então, não é sequer cogitado. O importante é ganhar dinheiro, mesmo que às custas da saúde física, mental e familiar. Aliás, a própria expressão “ganhar dinheiro” ao invés da versão inglesa “fazer dinheiro”, por mais que pareça inofensiva, carrega uma forte carga assistencialista, como se estivéssemos pedindo um favor ou uma esmola ao invés de fazer algo produtivo que pudesse gerar dinheiro como o reconhecimento do valor dessa atividade. A forte influência da TV aberta assim como da cultura da diversão (futebol, carnaval, etc.) enfoca o prazer e demoniza a educação, o esforço e o trabalho, guiando jovens que já estão em um ambiente de educação fraca, atrasada e pouquíssima atraente para atividades que nada acrescentarão em sua formação pessoal e profissional. Para citar apenas um único exemplo, a forma caricata das novelas brasileiras retratarem os personagens em diferentes classes sociais gera uma leitura muito pobre da realidade, reduzindo a dinâmica da sociedade a personagens com traços padronizados (patrões carrascos e empregados bonzinhos, por exemplo). E com isso, uma grande parcela da população brasileira vai ficando entrincheirada em uma profecia autorrealizável de pobreza, desigualdade social e abismo entre empregados e patrões, reforçando o maniqueísmo, a dualidade, o pensamento binário da luta de classes tão disseminada pela ideologia socialista (explore mais essa questão na postagem “Socialismo e Capitalismo“).

E a ausência de uma educação empreendedora na maioria das escolas públicas vai criando um gigantesco distanciamento imaginário entre a realidade das crianças e uma eventual visão de futuro como empreendedores. O empreendedorismo como ferramenta de transformação pessoal e social (essa sim a verdadeira essência do conceito) nunca fora apresentado; o empresário rico parece ter sido sempre rico e a condição de pobreza atual parece ser uma situação insuperável, chegando a ser até idolatrada por certos pseudo-intelectuais de orientação socialista. Se uma minúscula amostragem dessas crianças acaba resultando em proprietários de empresas, isso se dá muito mais pelo hercúleo esforço individual e/ou pela influência de empreendedores na família do que por estímulos educacionais ou culturais. E a existência de uma legião de chefes doentios e ambientes de trabalho depressivos e até repressivos, fruto de uma falta de preparo educacional tanto de líderes quanto de liderados em ambientes empresariais de cultura fraca ou até inexistente, acaba por reforçar a percepção negativa do trabalho em nossa vida diária. Isso sem mencionar o quanto que o baixo nível educacional dificulta a contratação dos profissionais desejados por outro lado, estimulando a procura por profissionais estrangeiros mais qualificados.

À medida que vamos crescendo, a imagem de um governo paternalista e provedor vai sendo cada vez mais reforçada pela sensação geral de segurança que somente um cargo público pode oferecer por causa da maldita “estabilidade no emprego.” Tanto é que a busca por concursos públicos sempre foi muito grande, com uma exponencial procura por tais empregos a cada ano que passa. E aquilo que consideramos como conquistas trabalhistas têm se mostrado muito mais como um entrave à geração de novos postos de trabalho e à livre negociação entre patrões e empregados do que benefícios individuais e coletivos na prática.

A aversão ao capitalismo

Nas escolas e ambientes acadêmicos, por outro lado, a ideologia socialista vem exercendo uma forte influência na formação de adolescentes e jovens adultos. Como se não bastasse a fraqueza e a mediocridade da educação pública deste país, a evangelização do socialismo durante o período escolar e mais fortemente no ambiente acadêmico em um momento posterior de nossas vidas atrapalha ainda mais a compreensão da dimensão histórica da Revolução Industrial, do capitalismo de livre iniciativa, da economia, do comércio, da ciência, da tecnologia e da inovação no desenvolvimento do mundo moderno. Mais do que isso, oferece um desserviço ao entendimento muito mais amplo de nossa relação pessoal com o trabalho, desconsiderando o quanto que o capitalismo foi o sistema humano que mais tirou as pessoas da linha da miséria e, apesar de suas deficiências inegáveis (as quais precisam ser urgentemente remediadas) ainda é o legítimo responsável por geração de renda e riqueza, este último conceito na acepção mais ampla da palavra e não apenas no sentido de acúmulo de capital. Influenciados pela doutrinação socialista, os estudantes passam a demonizar o capitalismo e a endeusar o socialismo, criando barreiras ainda maiores para o fomento do empreendedorismo em instituições educacionais de nível superior. E o problema é que o ambiente acadêmico, o qual deveria constituir a principal alavanca de incentivo da pesquisa, da inovação e da parceria com incubadoras e startups para fomentar o empreendedorismo no país, acaba se transformando em um reduto de disseminação do ideal socialista que, por sua vez, apresenta uma forte resistência ao trabalho em conjunto com o setor privado. Por questões ideológicas ou mesmo corporativistas, essas últimas relacionadas ao medo da interferência de ideias externas na condução do ambiente acadêmico tradicional, as universidades públicas produzem, quando muito, um maior número de pessoas interessadas na “segurança” de um cargo público. E desprovidos de grandes polos tecnológicos no país, muitos engenheiros e cientistas brasileiros que acabam ganhando destaque pelo digno valor de suas pesquisas são obrigados a trabalhar no exterior, onde terão chances bem maiores de conquistarem os seus sonhos. É o oposto do que ocorre nos Estados Unidos, por exemplo, onde existem programas para atrair não apenas as melhores mentes do país mas também de outras nações para as universidades com o objetivo desenvolver projetos científicos e tecnológicos.

E até aquilo conhecido por “capitalismo entre amigos”, ou seja, ligações antiéticas e privilegiadas entre empresas e governos que são extremamente comuns no Brasil, expõe os maus empresários como dependentes das obesas têtas do governo, influenciando a opinião pública a julgá-los como representativos da essência do capitalismo e, por dedução inconsequente, do empreendedorismo. Mas este tipo de gente em conjunto com os especuladores do mercado financeiro prejudicam muito a reputação do sistema, ambos constituindo as principais distorções que o capitalismo enfrenta na atualidade.

Por último mas não menos importante, ainda é imensa a burocracia para os pequenos empreendedores, os quais tem que lutar contra uma série de dificuldades e contra a falta de incentivos fiscal e trabalhista para começarem e depois se manterem durante os primeiros anos de existência de seus empreendimentos.

Não fomos educados para ser empreendedores

Como vemos, o país apresenta um quadro completamente desfavorável ao fomento do empreendedorismo. Mesmo constatando que nunca estivemos empreendendo tanto, nossos casos de sucesso ocorrem a despeito de todas essas dificuldades, salientando o quanto que os empreendedores brasileiros são ainda mais esforçados e resilientes do que o normal. É com essa turma, portanto, que nós temos que aprender e alinhar o nosso norte e não com o governo. Como disse certa vez o ex-presidente dos EUA, Ronald Reagan, “o governo é o problema e não a solução.”

É preciso educar as pessoas para que elas se tornem independentes. Independentes inclusive do próprio governo. E o empreendedorismo é uma filosofia de vida plenamente capaz de cumprir essa missão.

Por causa desse panorama extremamente resumido é que eu acredito que precisamos implementar com extrema urgência uma cultura empreendedora no Brasil. Terá que ser um projeto educacional de longo prazo, fazendo o contraponto que os liberais talvez tenham falhado em efetuar mas que a Internet permitiria, em princípio, um trabalho relativamente rápido de recuperação do território perdido frente à difusão do ideal socialista. Mas é preciso começar já.

Com o tempo, obviamente, essa influência terá que chegar aos meios acadêmicos e expulsar o ideal socialista dessas instituições para que elas possam voltar às origens e se dedicarem livremente ao fomento da pesquisa, do conhecimento, da inovação e do desenvolvimento da sociedade ao invés de serem reféns de uma ideologia que, apesar de se autoproclamar “progressista”, na prática resulta em agravamento de conflitos e retrocesso sócio-econômico.

Somente uma revolução cultural de valorização do empreendedorismo, do capitalismo e do ideal liberal em detrimento do ideal socialista é que poderá trazer o desenvolvimento de volta ao nosso país, assolado que está por tanta corrupção e mediocridade de pensamento cujo resultado prático nós devemos reconhecer humildemente que deu muito errado.

Este blog é um oferecimento da Afronta Marketing.

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2 comentários sobre “Qual a Saída para a Crise?

  1. Olá Marcio. Concordo contigo a respeito da necessidade da formação de uma mentalidade empreendedora. Sou extremamente a favor da economia criativa. Porém, enquanto permanecer a atual política fiscal, o caminho para essas mudanças continuam obscuros. Se temos que ser menos dependentes do governo (e temos mesmo), não faz o menor sentido que este continue, devido à sua catastrófica administração, extorquindo a todos nós com as maiores alíquotas de impostos do mundo. Faz menos sentido ainda gerarmos atividades produtivas de forma mais independente e continuarmos pagando taxas esmagadoras por serviços inexistentes. Agora, a problemática da máquina administrativa brasileira, aliada a uma mentalidade corruptiva histórica e em franco crescimento, chegou a tal ponto que chegou a acreditar que “nunca mais” (e nunca mais é algo muito pesado) nos livraremos de uma cobrança insana de impostos no Brasil, sendo essa insanidade contínua e crescente.

    Abraço.

    Roni

    • Olá Roni. Em primeiro lugar, obrigado por comentar por aqui. Na verdade, eu me concentrei em apenas um espectro do problema, o qual eu considero o menos explorado atualmente e o mais próximo dos objetivos deste blog. Todavia, os outros aspectos que eu considero vitais vão ao encontro justamente daquilo que você escreveu, tendo relação com o primeiro parágrafo da minha postagem, onde eu mencionei a importância da imensa pressão popular que devemos exercer sobre a esfera política nacional.

      De fato, o governo atual é o maior entrave para a implementação de tudo isso que eu escrevi. A altíssima carga tributária, a falência dos serviços públicos, o espírito intervencionista, a orientação populista e assistencialista de suas atividades (este último aspecto eu não acho totalmente errado, mas considero incompleto e mal administrado), a crença em um Estado gigante e o seu assustador aparelhamento, a manipulação da informação pública a favor do status-quo, a doutrinação do socialismo em detrimento do capitalismo, políticas internacionais equivocadas alinhadas com países fora do eixo capitalista, a incompetência para lidar com a economia e com o mercado e o monumental envolvimento com a corrupção constituem, definitivamente, o caminho inverso ao que eu tentei expor por aqui.

      Não há dúvidas de que o governo atual precisa ser destituído para que o Brasil comece a trilhar o caminho do desenvolvimento novamente. Motivos para isso não faltam. O impeachment, porém, seria apenas o início de um processo, haja visto que teríamos que continuar a lutar contra uma longa tradição de corrupção na política brasileira que ultrapassa as siglas partidárias, constituindo outro gigantesco problema de ordem cultural.

      Mas para não ser contraditório ao meu próprio texto, se o impeachment não ocorrer, não podemos esperar pelo governo para tomar as rédias de nossa própria vida. O empreendedorismo, não sem muito esforço, obviamente, pode representar uma saída para a conjuntura atual.

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