O Poder do Empreendedorismo Social

Vendedoras do iogurte Shokti Doi em Bangladesh.

Em termos bem gerais, o empreendedorismo social poderia ser caracterizado por soluções inovadoras para os problemas sociais mais prementes através de empreendedores ambiciosos, os quais promovem impacto de larga escala na sociedade por intermédio da implantação de grandes mudanças de paradigmas em termos de negócio. Ao invés de largarem as necessidades da sociedade nas mãos do setor público, os empreendedores sociais identificam o que não está a funcionando e resolvem o problema mudando o sistema, disseminando a solução e persuadindo sociedades inteiras a seguir um novo rumo.

Embora o termo soe impreciso pelo fato de abarcar empreendimentos em setores bem distintos como o da educação, dos direitos humanos e da proteção do meio ambiente, essas iniciativas acabam recaindo indiretamente sobre a sociedade, eliminando assim a aparente imprecisão quando encaradas de forma mais sistêmica. É preciso tomar cuidado, porém, para não confundir tais empreendimentos com a ideologia socialista, com ONGs ou com a pura e simples filantropia que é baseada em doações. Tratam-se de negócios que, ou geram receita apenas para cobrir os seus custos, ou geram lucro propriamente dito (ainda que os modelos de geração de receita sejam criativos e bem variados) como forma de compensação (conforme prega a essência do capitalismo de livre iniciativa).

Apesar de ser um movimento muito mais novo do ponto de vista histórico do que o conceito convencional de empreendedorismo, já existem bons exemplos de empreendedorismo social como a Tesla Motors, o Whole Foods Market, a Terracycle, a D.light e a VisionSpring. Mas talvez o exemplo mais representativo do conceito de empreendedorismo social esteja presente nos casos do Grameen Bank e da Grameen Danone, os quais eu terei o prazer de apresentar nas linhas a seguir

A história do Grameen Bank

Muhammad Yunus nasceu em 1940 em Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo. Com a mãe falecida aos 12 anos e o pai sendo um joalheiro, sua vida nunca foi fácil. Mas armado com uma força de vontade hercúlea, ele conseguiu uma bolsa de estudos para o programa da Comissão Fullbright dos Estados Unidos, fazendo seu doutorado na Vanderbilt University em Nashville, Tennesse. Depois de formado, Yunus continuou nos EUA como professor de economia na Middle Tennessee State University, retornando para Bangladesh em 1972.

Um dia, Yunus conheceu um grupo de mulheres que faziam móveis de bambu para prover o sustento de suas famílias e, ao ouvir as queixas das dificuldades que elas enfrentavam para comprar sua matéria prima, Yunus tirou do próprio bolso 27 dólares e doou para aquelas mulheres para que elas pudessem comprar o material. Para espanto do doador, o grupo de artesãs reembolsou o professor pouco tempo depois, idoneidade inesperada que serviu de inspiração para que Yunus buscasse aprender um pouco mais sobre a situação daquelas mulheres. Não demorou muito para Yunus perceber que havia uma necessidade geral de fluxo de caixa com outros grupos de artesãs, as quais queriam trabalhar mas não dispunham do capital mínimo para começar. Por causa disso, muitas delas estavam na mão de agiotas, os quais as colocavam praticamente em regime de escravidão. E ao invés de servir como fonte de financiamento, as instituições financeiras da região só se distanciavam ainda mais daquelas trabalhadoras, cobrando juros exorbitantes de até 2.000%.

Sensibilizado com essa situação, Yunus montou em 1976 o até então pioneiro projeto de microcrédito para ajudar aquelas mulheres. Ele o chamou de Grameen Bank (“banco do vilarejo”, no idioma bengali). Com uma política antiburocrática na qual não havia contratos assinados (pasmem!), os tomadores de empréstimos só deveriam poupar diminutas quantias como uma espécie de seguro contra situações de contingência. E hoje, com um pouco mais de 18.000 funcionários, o banco acumula a fabulosa marca de 10,89 bilhões de dólares em empréstimos desde a criação da instituição, apresentando uma taxa de adimplência de 96,89% (número que é de dar inveja ao bancos convencionais, sendo ainda mais excepcional se levarmos em consideração que o sistema é baseado apenas na confiança).

A história da Grameen Danone

Em Outubro de 2005, por conta de uma palestra que faria na França, Yunus foi contatado por Franck Riboud, CEO do grupo Danone. Nesse encontro, Riboud mencionou o seguinte: “Não queremos apenas vender os nossos produtos para pessoas abastadas. Gostaríamos de encontrar formas de alimentar os pobres. Esperamos que o senhor possa nos ajudar a encontrar uma maneira de fazer isso.”

Yunus então propôs que eles poderiam desenvolver um alimento enriquecido (mais do que um simples iogurte) para que pudesse ajudar as crianças desnutridas de Bangladesh, sendo vendidos de porta em porta pelas mulheres por apenas alguns centavos. Riboud disse: “Vamos fazer isso” e selou o acordo com um aperto de mãos.

Fábrica Modelo da Grameen Danone em Bangladesh

Assim nasceu a Grameen Danone. Com um ímpeto criativo e empreendedor apenas verificável nos pequenos negócios, o projeto encontrou enormes desafios que foram superados um a um. Ao invés de fábricas enormes nos moldes internacionais da Danone, eles criaram um modelo super-reduzido de produção, o qual levou em conta as estradas precárias e o irregular fornecimento de energia do país. Com um tempo de processamento mais curto e em uma escala tão pequena de produção, o iogurte se manteria fresco mesmo a temperaturas de 40 graus e os problemas com as interrupções de energia não seriam um entrave para ao projeto. A maior matéria prima, o leite, foi conseguido mediante a intermediação das tomadoras de empréstimo do Grameen, as quais já haviam adquirido algumas vacas para seu próprio sustento nos anos anteriores. Para disfarçar o gosto das vitaminas e agradar a cultura local que aprecia bebidas muito doces, foi acrescentado um pouco de melaço e açúcar de cana, 2 produtos cultivados na região.

As vendedoras receberam uma comissão de 10%, ajudando a movimentar a economia local. E um ano depois da iniciativa, a Grameen Danone estava vendendo o iogurte Shokti Doi (“forte como um leão”, em bengali) para milhões de pessoas em Bangladesh a um custo mínimo que a população podia comprar. E hoje, já existe um projeto para transformar o recipiente de plástico em um material comestível, semelhante à casquinha de sorvete, adicionando ainda mais valor nutricional ao produto e contribuindo para diminuir o impacto sobre o meio ambiente.

O Prêmio Nobel da Paz

Em Outubro de 2006, Mohammed Yunus e o Grameen Bank receberam em conjunto o Prêmio Nobel da Paz pelos “esforços de criar desenvolvimento econômico e social a partir de baixo”, diz o site oficial do Prêmio Nobel.

Que estes exemplos sirvam de inspiração aos empreendedores brasileiros para que apliquem sua engenhosidade neste país que, dependendo da situação, apresenta condições bem parecidas com as de Bangladesh, preenchendo as enormes lacunas que os governos insistem em deixar para trás.

Este blog é um oferecimento da Afronta Marketing.

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