Minha Empresa, Minha Igreja

Apple Store Carrousel du Louvre
“Apple Store Carrousel du Louvre, 18 March 2011” by Mikhail (Vokabre) Shcherbakov.

Embora possa parecer um desrespeito ou até mesmo uma heresia, seja do ponto de vista religioso ou mesmo empresarial, as melhores empresas do planeta possuem muitas relações com as religiões institucionalizadas. Mas trata-se de uma analogia inofensiva para as religiões e de uma de poderosa visão para as empresas que estiverem realmente dispostas a fazer a diferença no século 21.

Eu já associei a criação de uma marca com a criação de uma religião (leiam a postagem “A Marca Como Religião”), vinculando consistentemente a força da mensagem com a capacidade de atrair seguidores afinados com aquilo que a marca representa. Da mesma maneira, sua empresa tem que se comportar como uma igreja capaz de nutrir sua marca, satisfazer os anseios de sacerdotes e fiéis e atrair novos seguidores. Caso contrário, toda consistência irá por água abaixo, sua religião perderá a força e, com isso, virá a tão temida perda de seguidores.

Vejam o exemplo da Apple. Tudo começou com Steve Jobs and Steve Wozniak no final dos anos 1970, com a visão de mundo onde os computadores estariam à disposição de pessoas comuns como você e eu, impulsionando o conhecimento e o desenvolvimento pessoal do ser humano. É lógico que ambos queriam fazer dinheiro. Mas essa visão era tão distante para a época que, se o dinheiro fosse o objetivo ao invés do resultado da visão, a Apple jamais chegaria aonde chegou, pois seria incapaz de inspirar os primeiros empregados, os primeiros investidores e os primeiros clientes, passando por todos os percalços que eles passaram no início do empreendimento.

Mas engana-se quem deduz que essa postura de pregação foi útil apenas nos primórdios da Apple. Como qualquer tipo de ideia, ela precisa ser alimentada e retroalimentada frequentemente pelos líderes, pois a tendência é que o ser humano perca o foco com o passar do tempo (fenômeno que de fato ocorreu durante o afastamento de Steve Jobs da Apple). Os próprios Worldwide Developers Conferences (WWDC) são eventos anuais onde desenvolvedores e entusiastas da Apple se reúnem, como tradicionalmente sempre fizeram, inicialmente com o principal objetivo de assistir a pregação de seu grande líder como fiéis em uma enorme catedral (o maior evento de todos registou a marca de 5.200 participantes). Então, tem tudo a ver com propósito, causa, pregação e crença, elementos que foram ficando cada vez mais evidentes no discurso e no comportamento de Jobs com o passar do tempo.

Na medida em que o discurso da Apple foi ganhando força pelo peso do poder de convencimento de Jobs, as diferenças entre empregados, investidores e clientes foram sumindo. Afinal, os empregados eram aqueles que acreditavam na proposta, sendo loucos o suficiente para tentar fazer algo que ninguém havia feito e aguentar as destemperanças da fase explosiva de Steve Jobs. Os investidores também tinham sua cota de crença naquilo que Jobs pregava (lembrem-se que tentar vender computadores para pessoas físicas no varejo era algo completamente impensado para a época). E no final da ponta de todo esse esforço estavam os clientes, os quais também acreditavam na proposta da empresa ao ponto de desembolsar altas somas de dinheiro (os produtos da Apple nunca foram baratos mas eram ainda mais caros durante os primeiros anos da empresa) para investirem no primeiro computador pessoal.

Do ponto de vista comportamental, é óbvio que as diferenças entre os 4 tipos de pessoas (líderes, empregados, investidores e clientes) sempre foi enorme. Todavia, a crença na proposta foi necessariamente algo comum a todos eles. Tanto é que a Apple passou a simbolizar uma causa que tinha tudo a ver com a personalidade daquela gente, não sendo diferente com as pessoas que frequentam uma religião específica movidas pela sua fé pessoal. E até expressões como “clientes fiéis” ou “fidelização do cliente” estão profundamente enraizadas no arcabouço religioso, devendo ser o produto ou serviço apenas as provas tangíveis de que a pregação do líder, a mensagem da marca e a visão da empresa são elementos totalmente consistentes e integrados. Qualquer inconsistência entre produto, serviço, atendimento, marca, liderança e comunicação afeta o desempenho do todo e isso é, muito infelizmente, algo extremamente comum, principalmente quando envolve grandes empresas que precisam trabalhar em escala.

São poucas as empresas que conseguem a proeza aqui brevemente descrita. E a razão mais óbvia é que pouquíssimos líderes conseguem enxergar este tipo de relação em seu universo racional. E aqueles que conseguem, minam todo o processo ao serem incapazes de manter a consistência ente discurso e comportamento com o passar do tempo. Ou, pior ainda, quando são incapazes de acreditar na própria visão e missão da empresa (tal qual papas e bispos que não acreditassem nos preceitos do cristianismo, por exemplo). Essa descrença pode ocorrer por conta da visão e da missão serem apenas declarações genéricas que não representam absolutamente nada na maior parte dos casos, por conta da empresa ser incapaz de rever a si própria diante da rigidez do seu modus operandi, por conta dos líderes possuírem uma visão completamente deturpada do mundo dos negócios ou por causa de uma boa mistura entre todas as alternativas anteriores.

A partir da inconsistência da liderança, o espalhamento da descrença generalizada será apenas uma questão de tempo. Os funcionários serão os primeiros a sentir essa inconsistência, onde elementos corrosivos da cultura como a falta de ética, a insatisfação, a fofoca, a pressão, o medo, o demérito e a descrença na empresa consumirão pouco a pouco o ambiente de trabalho. É papel da liderança não deixar que tais elementos desestabilizadores da unidade religiosa ocorram ou, se começarem a ocorrer, fazer o possível para estancar o sangue e restaurar a fé no exercício do trabalho dentro da visão que a empresa propõe, sob o risco dessa inconsistência entre pregação e comportamento começar a afetar as vendas e o negócio como um todo. E mais uma vez, tudo dependerá da habilidade dos sacerdotes em detectar os problemas internos, corrigi-los a tempo e realinhar as expectativas dos fiéis com os objetivos do negócio.

Por fim, os descrentes de plantão podem argumentar que o tão famigerado lucro não figura aqui em minhas analogias, sendo todo esse papo de criação de visão, crença, pregação, atração e manutenção de fiéis questões subjetivas que não possuem qualquer relação com o mundo empresarial, resultando em uma grande perda de tempo. Será mesmo?

Como resposta, eu proponho a seguinte reflexão: as religiões institucionalizadas arrecadam monstruosas somas de dinheiro sem vender um produto ou serviço específico, pelo menos em princípio (muitas religiões, hoje em dia, vendem sim produtos religiosos diversos e isso gera muita receita apesar de muitos negarem tal inclinação para o fomento de capital). Por que a sua empresa, partindo da venda de um produto ou serviço, não pode fazer o caminho inverso, criando uma verdadeira religião ao redor daquilo que você vende?

Você, como líder, tem a obrigação de tomar a frente e ser o maior pregador do seu negócio.

Este blog é um oferecimento da Afronta Marketing.

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