Inovação e o Medo de Falhar

Palestrante

Apple G4 Cube

A inovação é a chave que abre inúmeras portas no mundo dos negócios, sendo ainda mais estratégica em tempos de crise para alavancar especialmente as empresas em maiores dificuldades. E como a inovação consiste em tornar o intangível tangível por meio de constantes flertes com o futuro por um lado, e a humilde constatação de que somos muito ruins em prever o futuro por outro, o erro ou a falha constituem parte natural de todo o processo criativo que leva por fim à inovação.

Mas a narrativa predominante do mundo dos negócios, principalmente do ponto de vista gerencial, consolidou a visão de que os erros são vergonhosos, inaceitáveis e perigosos. É natural que, com o objetivo de reduzir os custos e maximizar os lucros, o erro tenha sido implacavelmente caçado nas esferas industriais e administrativas, tendo depois migrado para todos os setores da cadeia produtiva. E em alguns setores o banimento do erro chega a ser altamente desejável como nas empresas aéreas e médicas, por exemplo, onde a incansável perseguição dos erros garante não apenas os lucros como também salva inúmeras vidas.

Mas existe um lado perverso da aversão ao erro. Até culturalmente falando, a sociedade moderna rejeita veementemente as falhas, sendo comum inclusive a punição pública como uma forma comum de coibir os erros e evitar que outros ocorram com base na imposição da ameaça e do medo. E em uma empresa avessa ao erro, as pessoas vão evitar os riscos por conta do medo de falhar e serem severamente punidas por isso. E é justamente aqui onde começa o maior de todos os problemas para a inovação. Já que o erro nunca é uma opção, os colaboradores sempre tentarão repetir alguma coisa boa feita no passado e com isso toda a criatividade é jogada na lata do lixo. Muitas empresas inclusive adotam abertamente a estratégia da imitação do líder de mercado ou, quando muito, lançam produtos derivados de empresas concorrentes mas não inovadores. Com isso, o medo toma conta das organizações, as decisões ficam engessadas, as vendas despencam, as margens ficam baixas e o mercado se canibaliza por meio da guerra de preços.

Em empresas criativas, por outro lado, o fracasso é a manifestação do aprendizado e da exploração de novas ideias na intersecção entre o presente e o futuro, tornando o ambiente da maioria das organizações completamente desfavorável ao fomento da inovação, já que o erro é comumente visto como uma ameaça e não como ferramenta viabilizadora do mesmo. Isso não significa que os erros devam passar a ser desejáveis mas sim entendidos como etapas inevitáveis ao adentrarmos em territórios desconhecidos, sendo por isso mesmo necessário encará-los como eventos naturais no processo de fomento da inovação. Resumindo, os erros ocorrem de uma forma ou de outra, mas é a reação que temos em relação a eles que constitui o divisor de águas entre as empresas medíocres e as empresas inovadoras.

E os sintomas de uma empresa que condena o fracasso são muito claros: os colaboradores se fecham em si mesmos ao invés de buscarem as causas dos problemas em conjunto, procurando por culpados ao invés de construírem soluções ou discutindo as pessoas ao invés de discutirem as ideias em jogo. Nesse cenário de cinismo e estagnação criativa, as pessoas não são sinceras por medo de serem criticadas ou até mesmo ridicularizadas e a atmosfera de ameaça prevalece sobre a de confiança. E é pela intensidade desse quadro que nós conseguimos medir o quanto que nossas empresas estão longe de uma cultura de inovação.

O que podemos fazer para reverter esse panorama?

A primeira coisa é mudar a forma como abordamos os erros e o fracasso. E os líderes possuem papel fundamental nessa empreitada, a começar pelo cultivo da transparência, falando abertamente dos seus próprios erros para que os outros se sintam a vontade para fazer o mesmo e isso criar uma atmosfera de confiança. Ao contrário do que apregoa a cultura empresarial predominante, as organizações que quiserem abraçar o desafio da inovação terão que parar de fugir dos erros ou parar de fingir que eles simplesmente não existem. Essa abertura para falar e reconhecer os próprios erros é o primeiro passo para que as pessoas aprendam com eles e não os joguem para debaixo do tapete.

Outra questão crucial no processo criativo e subsequente inovação é enxergar o erro como uma forma de aprendizado, pois ele sempre traz consigo novas informações que devem ser consideradas no processo de inovação. Em uma abordagem que ignora ou demoniza os erros, tais informações passam totalmente despercebidas, sendo tal ignorância um convite à repetição do mesmo erro em algum momento do futuro. E isso constitui uma situação de ainda maior estagnação, já que a chave para a inovação se encontra na abertura para errar de formas diferentes e não na repetição dos mesmos tipos de erros que, inevitavelmente, impedirão os avanços dos projetos.

É de responsabilidade dos líderes, portanto, criar as condições para que os problemas fiquem à mostra e possam ser corrigidos pelos seus próprios colaboradores sempre que possível. Esse é outro conceito contrário ao que apregoa a corrente predominante em administração, pois se os colaboradores conseguem se unir para resolver com maturidade os problemas importantes de sua empresa, isto significa que a liderança está cumprindo com maestria o seu papel ao invés de acharmos que o líder está ausente.

Ironicamente, é mais do que certo que muitas empresas fracassaram justamente por causa de seu conservadorismo e da frequente aversão aos erros do ponto de vista gerencial. No ímpeto de não correr riscos, muitas organizações pararam de inovar, passando a rejeitar ideias novas e assim atrair tudo aquilo que mais temiam: estagnação e fracasso. Mas para ser inovador é preciso ser ousado o suficiente para começar coisas que poderão fracassar eventualmente. Foi assim com duas das empresas de tecnologia mais inovadoras de todos os tempos: o Google e a Apple.

O Google Glass, por exemplo, foi um produto que não pegou. Mas o processo criativo do Google é conhecido por jamais menosprezar uma ideia e, mesmo que agora ele não seja um sucesso de vendas, seu desenvolvimento influenciará outros projetos, constituindo um aprendizado tanto em termos de marketing quanto em termos de tecnologia.

E foi justamente por enterrar seu processo criativo com direito a aversão à ousadia e a fobia por riscos que a Apple quase faliu em meados da década de 1990, além de ter amargado alguns fracassos de vendas posteriores como o Apple G4 Cube, por exemplo, o qual não vendeu nem um terço do que era esperado entre 2000 e 2001, apesar de muito bonito. Hoje, vejo que a Apple parece estar caminhando para um patamar de estagnação criativa com a comercialização de produtos questionáveis como o Apple Watch. De qualquer maneira, é inegável o que essa empresa conseguiu produzir na era de Steve Jobs em termos de inovação, não sendo a toa que esse boom criativo tenha ocorrido durante a gestão de um dos maiores líderes empresariais de todos os tempos.

Steve Jobs, obviamente, não tinha medo de falhar.

Este blog é um oferecimento da Afronta Marketing

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