Da Internet para as Ruas, das Ruas para a Internet

Palestrante

Manifestação do dia 15/03 na cidade de Jundiaí, SP.

No auge das generalizações que tentam diminuir, satanizar ou manchar a beleza das manifestações do último domingo, normalmente sob o argumento de que constituíram uma histeria coletiva ou uma conspiração da oposição com tudo o que existe de mais retrógrado em nosso país, eu gostaria de solicitar a rápida reflexão sobre o seguinte raciocínio:

Se a situação atual fosse rigorosamente a mesma (com apoteóticos escândalos de corrupção, completo aparelhamento do Estado, inchaço da máquina pública, situação econômica precária, serviços públicos sucateados e mentiras eleitorais), trocando apenas os personagens, com o PSDB ao invés do PT no poder há 13 anos seguidos, de que lado o PT estaria exatamente agora?

Nas ruas como sempre fizeram! Com o Lula e todas as outras lideranças do partido encabeçando as passeatas! Isto é tão lógico quanto 2 + 2 = 4! Quem viveu antes do primeiro mandato do Lula sabe muito bem disso!

Então acorda Brasil! Não discuta política como se fosse a velha discussão de times de futebol! Discuta o jogo que está sendo jogado e não a maldita camisa de seus times!

Precisamos aprender com urgência a discutir política e não partidos políticos. Precisamos começar a combater a corrupção e parar de aceitá-la sob a justificativa de que se trata de uma “característica cultural” (será um longo e doloroso caminho, estou bem consciente disso). A escravidão também era culturalmente aceita e nem por isso deixava de ser vergonhosa, inaceitável e revoltante, demandando um longo tempo para ser finalmente abolida.

O começo de uma mudança realmente significativa passa necessariamente pela discussão de uma ampla reforma política. Não é mais segredo para ninguém que o nosso sistema político constitui uma pesada trava que impede o avanço do país, evitando inclusive que líderes bem intencionados (independente da abrangência de atuação ou da natureza de seus partidos) consigam destaque ou o mínimo nível de poder. Isso explica, pelo menos em parte, porque a nossa carência por bons exemplos é um problema crônico. Ou seja, o sistema político atual cujo projeto de reforma permanece barrado no Congresso Nacional por razões que vocês podem deduzir é um dos grandes entraves no caminho da verdadeira prosperidade nacional. Portanto, esqueçam essa falácia utilizada inclusive nas mídias, tentando nos convencer de que a nossa única arma é o voto. Esqueçam isso! Com o sistema político atual, até o candidato mais benevolente do planeta seria obrigado a fazer conchavos, costurar alianças com interesses particulares, prestar contas às organizações que contribuíram com as verbas de campanha e adequar-se a um sistema totalmente tomado pela corrupção. Faz-se necessário, portanto, uma ampla pressão popular para que o sistema político mude radicalmente no Brasil. Do contrário, seremos obrigados a acompanhar a triste história de sempre, mesmo votando na melhor pessoa da galáxia.

A questão central aqui, portanto, não está na dicotomia impeachment/continuidade, simplismo de raciocínio que, mesmo com uma eventual saída da Dilma, não resultará em mudanças significativas para o país. A mudança que realmente interessa e está sendo negligenciada pela inócua discussão partidária é a pressão que devemos exercer em cima de nossos governantes em todas as esferas públicas, desde as municipais até federais e isso precisa começar a ser uma constante no Brasil, com tempo indefinido para acabar. Votamos mal e porcamente de 4 em 4 anos e isso, com raríssimas exceções, é o máximo de envolvimento que o povo brasileiro estabelece com a política. O resultado desse total abandono e descaso de nossa parte é aquilo que muito infelizmente observamos hoje. Isso precisa acabar e não será por conta de uma simples escolha partidária. Temos que pensar em formas muito mais ousadas de encontrar alternativas para um sistema que está completamente falido e precisamos reconhecer antes de tudo que ele está realmente falido.

E aqui caberia uma ressalva importantíssima sobre o pavor por manifestações sem vínculo partidário, não sei se por ignorância, por medo, por conveniência ou pela mescla das 3 coisas por parte de quem está a favor da situação, vinculando automaticamente o apartidarismo com militarismo. Por que na ausência de apoio a partidos, o militarismo deve ser automaticamente inserido para preencher “eventuais buracos”? Se a corrupção generalizada faz parte de todos os partidos, se a classe política está completamente desacreditada, porque eu sou obrigado a apoiar um partido, mesmo sem me sentir representado por nenhum deles? E por que o fato de eu estar apartidário hoje (isso pode mudar amanhã) remete-me automaticamente para um apoio de intervenção militar, coisa que sou absolutamente contra? Eu digo porque: porque o socialismo só consegue enxergar, a dualidade, o conflito, os extremos de uma sociedade, começando bem lá trás no século XIX com o conceito de “luta de classes“ adotado por Engels e Marx (para explorar um pouco mais esse ponto, leiam a postagem “Socialismo e Capitalismo“). E essa narrativa maniqueísta continua até hoje, com conclusões tendenciosas do tipo: se você não está apoiando, só pode ser contra. Se você não é do “bem”, só pode ser do “mal”. Se há cada vez mais pessoas engrossando o caldo da volta dos militares, todo mundo que está nas ruas é a favor do golpe. São heterossexuais contra homossexuais. Brancos contra negros. Ricos contra pobres. É uma forma completamente generalizada de enxergar o mundo pelos extremos, ignorar todas as camadas entre uma ponta e outra e evidenciar o conflito mais uma vez como a única forma de entender a realidade. Precisamos ultrapassar o paradigma do conflito, adotando uma estratégia de conciliação em um patamar muito mais criativo e audacioso, abandonando esse pavor pela discussão de modelos alternativos sob a alegação paranoica de que ela constitui um convite ao autoritarismo.

Uma quebra de paradigma muito legal nesse sentido foram as revolucionárias mudanças estabelecidas na Islândia. Eles fizeram uma Constituição fora do Parlamento recentemente, tirando proveito da facilidade tecnológica para gerar alta participação popular em uma espécie de democracia digital, com a Assembleia sendo constituída por professores, pescadores, enfim, pessoas comuns e não apenas políticos.

Isso demonstra na prática que não há mais a necessidade de criar sistemas de representação por impossibilidade de participação de uma faixa muito mais expressiva da população. Isso acabou com a Internet e poucas pessoas ainda se deram conta disso, desconsiderando inclusive movimentos sociais recentes como a Primavera Árabe, Occupy Wall Street e as próprias manifestações no Brasil, os quais tiveram em mídias sociais como Twitter e Facebook os seus principais meios de articulação. Os islandeses se encontravam em uma crise de representação parecida com a nossa, condição-limite que provocou a virada de mesa em direção à participação popular, reconstruindo a estrutura institucional de seu país a partir disso.

Não estou querendo dizer que dá para comparar países diametralmente opostos como a Islândia e o Brasil, mas sim que existem formas alternativas de democracia que passam longe da simples discussão partidária e mais longe ainda de uma temida intervenção militar. Que este exemplo seja um direcionamento, um norte inspirador para servir de guia no trilhar de nosso próprio caminho. A reportagem da RTP logo abaixo explica com mais detalhes a revolução que a Islândia está promovendo e as razões pelas quais nós devemos ficar muito atentos à ela.

Este blog é um oferecimento da Afronta Marketing

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