Como Ser Empreendedor

Como ser empreendedor

Empreendedorismo requer muito mais do que conhecimento técnico, mercado, recursos e oportunidade: requer uma mentalidade avessa ao que sempre aprendemos desde a infância. Pode parecer meio estranha, meio Matrix, meio teoria da conspiração, mas a afirmação a seguir é a mais pura realidade: nós não fomos treinados para sermos bons empreendedores; fomos treinados para sermos bons empregados. Da mesma forma que acreditávamos que a Terra era plana na Idade Média e isso foi provado ser uma visão da realidade completamente equivocada, nossa relação com o trabalho foi criada para obedecer a certos princípios que, embora não sejam errados, estão longe de constituir a única alternativa existente como é largamente disseminado em nossa sociedade. Desta falha de percepção advém toda uma gigantesca gama de crenças sobre economia, finanças e relações com o trabalho que remontam ao período da Revolução Industrial, criando uma barreira para o comportamento empreendedor na maioria das pessoas.

A sociedade capitalista atual é fruto dos prodígios da Era Industrial iniciada no Reino Unido em meados do século XVIII, com sua expansão pelo mundo a partir do século XIX. Com o florescimento de inúmeras descobertas e invenções, mudanças tecnológicas, acúmulo de capital, dentre outros fatores, os trabalhadores perderam o controle do processo produtivo que antes era artesanal (processo do início ao fim) e passaram a trabalhar para um patrão (na qualidade de empregados ou operários), perdendo a posse da matéria-prima, do produto final e do lucro. Esses trabalhadores passaram a controlar máquinas que pertenciam aos donos dos meios de produção, os quais passaram a receber todos os lucros. De lá para cá, inúmeras coisas mudaram, as conquistas sociais e trabalhistas foram enormes mas a crença neste conflito secular entre chefe x empregado continua arraigada fortemente em nossas cabeças. E não menos tabu é a visão da carteira assinada como a única alternativa para um futuro brilhante, ao passo que chefe ou patrão constituem os adjetivos para pessoas ambiciosas e perversas que já nasceram em berço de ouro e não possuem escrúpulos para manterem-se nessa condição. Está no inconsciente coletivo e agimos sobre o mundo na maior parte do tempo obedecendo a essas diretrizes retrógradas, constituindo um gigantesco paradigma apenas recentemente enfraquecido pela crescente cultura do empreendedorismo.

Partindo do pressuposto que você tem interesse neste assunto (de outra maneira você não estaria lendo esta postagem), é de extrema importância que você avalie as motivações que o levam a querer empreender. A motivação é um item fundamental pois é ela que será a responsável por você acordar cedo todas as manhãs. O lucro é uma das primeiras coisas que surgem em nossa cabeça e, muito obviamente, todo mundo quer ganhar dinheiro. Aliás, acho até a nossa expressão “ganhar dinheiro” um conceito falho, sendo a expressão inglesa “fazer dinheiro” algo muito mais consistente com a realidade do empreendedorismo. Todavia, cabe a você se perguntar se a questão financeira fosse algo plenamente resolvido em sua vida, se ainda assim você gostaria de ser útil na resolução de algum problema, sendo justamente esse tipo de motivação a essência do empreendedorismo. O dinheiro pelo dinheiro, sem uma causa, sem uma motivação, não fará de você um empreendedor.

Mas melhor do que falar sobre o que significa empreender é desmistificar o conceito e falar sobre aquilo que não tem a ver com esse verbo. Apelando mais uma vez para o filme Matrix, “…a maior parte das pessoas não está pronta para acordar. E muitos são tão inertes, tão dependentes do sistema que vão lutar para protegê-lo.” Ou seja, as pessoas e o próprio sistema tentam te convencer o tempo todo que empreender não é uma boa ideia, sendo esse o primeiro grande desafio para a maioria dos empreendedores: vencer o medo. A mentalidade generalizada, a vala comum na qual cai a grande parte dos pensamentos contrários ao empreendedorismo, diz respeito aos mitos de uma ”vida segura” somente provida pela carteira assinada, quando na verdade o emprego garante (durante um tempo limitado) apenas o pagamento das contas de cada mês. Mesmo em nossas famílias, o sucesso é traduzido para a gente desde a mais tenra idade como “ter um bom emprego”, ainda mais se este for dentro do funcionalismo público. Tanto é que são cada vez maiores as buscas por concursos públicos, fomentando uma verdadeira indústria de cursos preparatórios para “a vida boa e segura” de um trabalho na estrutura gorda do governo.

Um mito comum sobre o assunto refere-se ao empreendedor ser um indivíduo que já nasceu com tais características e que as mesmas não podem ser aprendidas. Puta engano! É possível sim aprender a ser empreendedor, sendo isso uma questão comportamental e não genética. Outro mito frequente refere-se às supostas vantagens de ser dono do seu próprio negócio: levar uma vida sem chefe, ficar rico, adquirir status e trabalhar pouco tempo. Embora um ou outro item possa até ser verdadeiro uma vez ou outra, a combinação de todos eles é o mesmo que encontrar uma agulha em 1000 palheiros, sendo tal visão míope sobre empreender a responsável pela grande quantidade de desistências nas primeiras tentativas que frustram essa “visão romântica” do empreendedorismo.

De fato, empreender constitui um risco mas trata-se de um risco calculado. O verdadeiro empreendedor não vai meter os pés pelas mãos: vai se informar, se capacitar, aprender coisas novas o tempo todo e planejar o seu futuro. Assim, poderíamos dizer que uma das características do empreendedor é ter coragem para assumir riscos calculados. Podemos empreender e seguir uma vida mais arriscada, “mais insegura” na visão dos defensores da carteira assinada, mas com certeza será uma vida mais feliz e mais gratificante. Para tanto, você precisa dar o primeiro passo que é começar a aprender a pensar como um empreendedor.

Pensando em dar uma humilde contribuição para aqueles que estão começando agora a se interessar por empreendedorismo, seguem 10 dicas fundamentais na minha opinião para quem quer ser empreendedor. Eis a lista:

1. PREPARE-SE PARA ESTUDAR ATÉ OS ÚLTIMOS DIAS DA SUA VIDA.

Esta dica vale para todo mundo, independente de querer ou não empreender, mas eu não poderia deixar de citá-la por aqui em primeiro lugar. A verdade é que se você não estiver predisposto a aprender o tempo todo, não terá como se dar bem na condição de empregado, sendo ainda mais improvável de manter-se vivo dentro do dinamismo do mercado como empreendedor, seja em que segmento for. Se você não gosta muito de aprender coisas novas, aconselho nem começar a tentar.

2. MIRE-SE NOS GRANDES EXEMPLOS.

Aprender com quem já chegou lá é uma questão de lógica. Pode encurtar caminhos e servir de estímulo para superar as dificuldades. Procure se espelhar nos empresários de sucesso. Conhecer a história deles serve de inspiração e aprendizado, já que você pode pensar: “se fulano conseguiu chegar lá, eu também posso”. Não precisa ser necessariamente alguém famoso. Pode ser um conhecido seu, alguém mais próximo da sua realidade. Aliás, se você conhece pessoalmente um empreendedor de sucesso, procure consultá-lo sem medo de não ser atendido. Na maior parte dos casos, os empreendedores gostam de ajudar e incentivar o empreendedorismo.

3. SEJA HUMILDE.

Mais uma dica que serve para a vida, sendo ainda mais fundamental para quem quer empreender. Os erros serão inevitáveis, afinal de contas, você nunca empreendeu antes. Por isso, nada mais fundamental do que reconhecer humildemente os erros e aprender com eles. Caso contrário, sua empresa não sobreviverá por muito tempo.

4. O IMPORTANTE É CRIAR, NÃO NECESSARIAMENTE INOVAR.

Este é mais um mito comum que gira em torno do conceito de empreendedorismo. Muita gente acredita que, para abrir um negócio de sucesso você tem que ter uma ideia inédita no universo, uma invenção revolucionária ou um segredo muito bem guardado a sete chaves. Tudo furado! Ideias inéditas até existem mas são extremamente raras. Se todo empreendedor fosse esperar ter uma ideia inédita para começar o seu negócio, hoje o mundo seria muito mais pobre e atrasado. A maioria dos bons negócios surge de ideias existentes que são aperfeiçoadas ou de diferenciações em termos de atendimento, posicionamento, preço, experiência do consumidor, etc. E para finalizar esta dica, esqueça essa palhaçada de esconder um “grande segredo” que você tem com medo de que alguém possa roubar a sua ideia brilhante. Esqueça isso! É justamente o contrário: ideias servem para serem compartilhadas. Você tem mais é que espalhar a sua ideia, conversar com as pessoas e verificar se, de fato, ela é boa para os outros e não apenas para o seu inflado ego. Afinal de contas, lembre-se que uma empresa é feita para atender os clientes e não a você. Sem cliente você não é nada. Portanto, se apenas você acha a sua ideia genial, sua empresa já está fadada a fracassar a partir da sua concepção.

5. SEJA PERSEVERANTE.

Ser um empreendedor de sucesso embora não seja uma condição impossível é um desafio extremamente difícil. Até mesmo por causa de toda a mudança de paradigma descrita no início desta postagem, definitivamente, não é uma tarefa para qualquer um. Com essa frase em mente, esteja certo de que muitas serão as dificuldades, o “não” será a palavra mais ouvida por você e haverá momentos de absoluto desespero. Não me entenda mal. Não quero desanimá-lo mas é importante tocar nesse ponto já que muita gente acredita que só existem flores na jornada de um empresário bem-sucedido, sem se dar ao trabalho de perguntar o quanto ele sofreu para chegar onde ele está. Por isso, será preciso uma boa dose de perseverança para não esmorecer, sendo comum as histórias de empreendedores que só tiveram sucesso depois de muitas tentativas frustradas.

6. APRENDA A VENDER E A VENDER VALOR.

Um bom empreendedor precisa aprender a vender. Não necessariamente vender um produto, um serviço (embora muitas vezes seja o próprio empreendedor quem inicia o processo de vendas) mas vender a sua ideia, o seu empreendimento, a sua empresa. Mas não se preocupe pois, como o próprio processo de empreender, é possível também aprender a vender. Agora, se você acredita que nunca terá essa habilidade, é melhor encontrar um sócio que tenha pois a sua empresa vai precisar e muito. Além disso, é muito útil saber vender valor ao invés de preço. Conforme eu escrevi na postagem “Marketing Business to Business”:

“…característica técnica não vende, o que vende é benefício. Descrever característica técnica toda empresa descreve (peso, tamanho, volume, velocidade, conexão, durabilidade, etc.). Embora sejam itens importantes, uma tabela com números não trás necessariamente uma diferenciação perceptível para quem decide na empresa do cliente. E se a diferenciação (valor) não é visível, seu cliente te diferencia pelo preço, exigindo desconto em cima de desconto.

Agora, o que sua empresa realmente vende? Uma máquina, um produto, um serviço? Não, se você quer fazer marketing de verdade, você tem que vender benefícios! Por exemplo: ao invés de dizer que sua máquina tem X de largura por Y de comprimento e Z de altura, você pode mencionar para o seu cliente “minha máquina é a ideal para você por que é leve, fácil de transportar e cabe em cima de qualquer bancada.” Ou ao invés de dizer que seu serviço é 2,3 vezes mais rápido que o serviço do concorrente, você pode comunicar que, com o seu serviço, seu cliente “ganhará mais tempo para focar no negócio dele”. Ou ainda ao invés de dizer que possui um serviço de cloud computing com armazenagem de 500Gb, mencionar que “assim seu cliente terá espaço suficiente para guardar seus dados com segurança e poderá acessá-los à qualquer hora e a partir de qualquer lugar”.

7. ESTABELEÇA OBJETIVOS BEM DEFINIDOS.

Estabelecer objetivos detalhados é de fundamental importância para quem quer empreender. Como naquele famoso diálogo de Alice no País das Maravilhas: Alice: Que caminho eu devo seguir? Gato: Depende muito de onde você quer chegar. Alice: Mas não me importa muito onde. Gato: Então qualquer caminho serve.” Assim, a definição de objetivos específicos como “crescer 30% ao mês”, “fechar X contratos a cada 15 dias” ou “mudar para um prédio com 500m² em Março do ano que vem” criam uma imagem mental do destino, sendo a partir daí muito mais fácil para o empreendedor traçar a rota correta.

8. ADOTE O MARKETING 3.0.

Já que você está começando nesse projeto, comece com o pé direito e invista em marketing, de preferência o marketing 3.0. Na postagem “Marketing 3.0: Utopia ou Necessidade”, eu defini o conceito da seguinte forma:

Marketing centrado no ser humano, tendo como contrapeso à lucratividade a responsabilidade corporativa, resultando em bem-estar, riqueza e sustentabilidade.” 

Embora possa parecer utópico, este conceito de marketing está baseado na realidade do mundo de hoje, o qual é muito mais transparente, com pessoas infinitamente mais informadas, com o poder da comunicação nas mãos de qualquer pessoa com acesso à Internet e com os problemas globais mais desafiadores de todos os tempos. Desta maneira, ser uma empresa voltada aos valores tem que fazer parte do seu core business. Do contrário, seus clientes acabarão com a reputação da sua empresa, falando mal da sua marca na Internet em sites como Reclame Aqui, nas redes sociais ou fazendo um vídeo para reclamar da sua empresa no YouTube (veja o caso clássico do  vídeo de protesto contra a Brastemp). Então, marketing 3.0 não é nem mais uma questão de utopia: é questão de sobrevivência.

9. PENSE COM A CABEÇA DO CLIENTE, NÃO COM A SUA.

Na postagem “Os 5 Maiores Mitos de Marketing” eu escrevi: “É óbvio que o empreendedor está sempre muito ligado ao seu negócio e, por isso mesmo, acaba tendo uma visão distorcida da realidade ao seu redor, tendo a certeza de que sua oferta é a melhor possível para o seu público-alvo. Afinal, na cabeça do empreendedor, tanta dedicação e conhecimento técnico acumulados em sua área de atuação devem necessariamente ser reconhecidos e valorizados. Todavia, é preciso uma boa dose de humildade para desconectar-se emocionalmente do histórico empresarial criado com tanto esforço para estar atento ao que está acontecendo com o mercado.”

De fato, não é raro o empreendedor distanciar-se do seu público-alvo com o passar do tempo. E é lógico que isso é como dar um tiro no próprio pé. Pior que isso, porém, é iniciar um empreendimento sem saber como os seus clientes pensam, quais são as suas necessidades e desejos e o que está tirando o sono deles todas as noites. Sem saber como o seu cliente pensa, você estará por sua própria conta e risco.

10. SEJA LÍDER, NÃO SEJA CHEFE.

Esta é uma dica que está intimamente relacionada com a dica número 2. Espelhando-se nos bons exemplos é possível aprender a ser um bom líder ao invés de chefe. Como eu escrevi na postagem “Ideias Criativas: Como Tê-las“: “Existe uma grande diferença entre ser chefe e ser líder. Líderes inspiram e ensinam. Chefes mandam e são odiados.”

E por que isso é importante? Ora, uma empresa é, essencialmente, feita de pessoas. E para que seu empreendimento seja um verdadeiro sucesso você precisará das melhores pessoas trabalhando ao seu lado. Obviamente, isso só será possível mediante remuneração, mas somente dinheiro não atrairá bons profissionais. Você precisará de muito mais do que isso. E é aí que entra a sua pessoa como exemplo, como referência, como fator de inspiração para que os outros queiram trabalhar contigo, mesmo que você não consiga oferecer um bom salário. Eu mesmo já quis trabalhar em uma empresa por conta do contato diário que eu teria com o proprietário, pessoa que eu admiro pelo seu caráter, energia, criatividade e inteligência.

Para finalizar esta postagem, a minha sugestão para quem quer empreender é bastante óbvia mas é de coração: estude, capacite-se, busque por informações, seja através de cursos, palestras, workshops ou através da própria Internet, a qual simplesmente abrange um universo de conhecimento sobre o assunto. Todavia, não deixe de começar com receio de que não estará capacitado(a) o suficiente. Se todo mundo fosse esperar o momento ideal para dar o pontapé inicial, ou seja, começar com a maior quantidade de conhecimento possível, ninguém nunca começaria nada. Afinal de contas, conforme eu mencionei na dica número 1, o aprendizado é simplesmente para a vida toda.

Este blog é um oferecimento da Afronta Marketing.

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2 comentários em “Como Ser Empreendedor

  1. Empreendedorismo
    Concordo com o texto, onde fala de crenças eque o individuo não pode mudar.
    Somos seres em constante mudanças, digo sempre que Estamos e não somos e estando podemos aprender o que quiser, até porque a mente humana é unica e com muita sabedoria, precisando apenas de estimulo.

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